segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Servidão Voluntária



A Servidão Voluntária

Desde a criação da expressão Servidão voluntária por La Boétie, a sociedade vem se deparando com o fato de sua natureza antropológica. Esse marco dá-se a partir da aceitação da teoria heliocêntrica, em que o ser humano se livra do dogma divino e do universo finito, e passa a se representar pela servidão voluntária, ou seja, aquela em que se evidencia a vontade humana.

Analisando isso mais a fundo, nota-se um paradoxo sem oposição entre tese e antítese, advindo da transformação radical da servidão ao longo dos tempos, que, de involuntária, passou a ser voluntária. No mundo antigo, reinava a onipotência divina, já no mundo moderno o homem se tornou livre pra usar a razão e o discurso da ciência. Logo o poder, antes divino, torna-se humano, evidenciando a servidão inerente, apesar dos pensamentos e vontades individuais. As pessoas, reconhecendo sua liberdade de decisão, foram em busca de utopias libertárias, as mesmas que encabeçaram a Revolução Francesa e derrubaram o Antigo Regime.

Porém, percebeu-se que este exercício de liberdade não levaria ao fim da servidão; logo a relação de liberdade e servidão se mostra muito mais complicada do que parece ser. Os Totalitarismos, como o nazismo e fascismo, são um bom exemplo de servidão voluntária, baseada nos princípios de democracia e na positividade que afirma, apesar da negatividade que de tais regimes.

A Psicanálise

A liberdade, que sempre foi combustível para a psicanálise, tem papel importante na transformação da servidão. A partir disso, Freud fez uma crítica à modernidade, defendendo a liberdade do inconsciente, para livrar as pessoas do determinismo da consciência, que influiria na sexualidade, e no que seria moralmente certo com relação a ela, como o mal-estar nas relações sociais e o empobrecimento simbólico. Portanto, se existe um servo, deve haver um senhor; logo existe uma relação, trata-se do masoquismo.
O Masoquismo

O masoquismo foi um paradigma muito destacado no discurso de Freud, pois passou a representar várias modalidades psicopatológicas, de forma que esta seria a origem dos problemas. Porém ele não vem sozinho, mas advém de uma necessidade de segurança do individuo; a isto dá se o nome de desamparo.
Para se proteger do desamparo, o indivíduo “se vale do masoquismo como forma primordial de subjetivação”, ou seja, se submete a outro alguém de todas as formas, desde que este não lhe deixe desamparado. O eco disso está no outro, que também foge do desamparo, mas triunfando sobre o servo.

O conceito de desamparo tem a ver com a queda da sociedade tradicional e a consequente perda de padrões de identidade, que levaram o indivíduo a se constituir de suas próprias escolhas e meios. Segundo Freud, sem atravessar essa fase de desamparo e suportando a dor, o indivíduo não encontra sua verdadeira identidade e a liberdade, tornando-se parte da servidão.

Texto de referência: "Arquivos do mal-estar e da resistência" de Joel Birman, Capítulo I, "A servidão".

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