terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sobre a crítica da modernidade

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele;(...) tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

"O livro do desassossego", fragmento 70, Fernando Pessoa.

Este fragmento expõe o sentimento de inconsciência dos indivíduos absortos no cotidiano moderno, cegos diante da servidão social. A passagem exemplifica o conceito de Freud sobre a inconsciência, e consequente servidão involuntária e até mesmo oculta nas próprias pessoas.

Foto do filme "A fita branca" (Das weisse band, 2009) de Michael Haneke.
O filme trata dos nazi-facismos, políticas em que há uma submissão disfarçada de discurso civilizatório, característica do masoquismo e da servidão voluntária (vítimas) e involuntária (membros).

Paródia da servidão une um "enfeitiçador", que lembra domar e escravizar as vontades das pessoas e se assemelha à servidão involuntária, com a televisão, veículo de informação em massa que é um dos símbolos da modernidade e remete à servidão voluntária (já que ninguém é obrigado a assistí-la).

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