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| "Mulher ao espelho" - Pablo Picasso |
Uma pergunta aparentemente simples: Quem é você ?
Não é tão fácil como pode parecer a primeira vista, podemos admitir que este é um problema digno de uma pesquisa científica. Não só pela dificuldade, mas também pela importância que esta questão apresenta: outros especialistas têm se envolvido com ela além de cientistas e filósofos: nos tribunais, juízes, promotores, advogados, peritos, etc. Em praticamente todas as situações da vida cotidiana, a questão da identidade aparece, de uma forma ou de outra. A identidade de um reflete no outro e a do outro reflete naquele um (exemplo, pai e filho, ele só é meu pai porque eu sou filho dele).
“Quem sou eu?” A primeira observação a ser feita é que nossa identidade se mostra como a descrição de uma personagem. Personagem que surge num discurso (nossa resposta, nossa história).
Se você é personagem de uma história, quem é o autor dessa história? Todos nós – eu, você, as pessoas com quem convivemos – somos as personagens de uma história que nós mesmos criamos, fazendo-nos autores e personagens ao mesmo tempo.
Não só a identidade de uma personagem constitui a de outra e vice-versa, como também a identidade das personagens constitui a do autor.
Até agora falamos das pessoas como se elas fossem de uma determinada forma e não se modificassem, o que é falso. Há mudanças mais ou menos previsíveis, o estudante que se torna profissional depois de formado representa uma mudança bem mais prevista do que a do jovem que se torna criminoso.
Nós nos tornamos algo que não éramos ou nos tornamos algo que já éramos e estava como que “embutido” dentro de nós? Parece que quando se trata de algo positivamente valorizado, a tendência nossa é afirmar que estava “embutido” em nós (“sempre tive vocação para ser médico”); quando não desejável, frequentemente estava “embutido” nos outros (“sempre achei que ele tinha propensão para o crime”).
Uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. Por mais contraditório, por mais mutável que seja, sei que sou eu que assim, ou seja, sou uma unidade de contrários, sou uno na multiplicidade e na mudança.
No principio era o verbo
Quando queremos conhecer a identidade de alguém, nossa dificuldade consiste apenas em obter as informações necessárias. Obter informações necessárias é uma questão prática: quais as informações significativas, quais as fontes confiáveis, de que forma obter as informações, como interpretar essas informações, etc.
Como são fornecidas essas informações?
A forma mais simples, habitual e inicial é fornecer um nome, um substantivo; substantivo é a palavra que designa o ser, que nomeia o ser. Nós nos identificamos com nosso nome, que nos identifica num conjunto de outros seres, que indica nossa singularidade: nosso nome próprio. É sinal de amizade e respeito não esquecer nem confundir o nome das pessoas que prezamos.
O primeiro grupo social do qual fazemos parte é a família, exatamente quem nos dá nosso nome. Nosso primeiro nome nos diferencia de nossos familiares, enquanto o ultimo nos iguala a eles.
Diferença e Igualdade. É a primeira noção de identidade.
Sucessivamente, vamos nos diferenciando e nos igualando conforme os vários grupos sociais de que fazemos parte: brasileiro, igual a todos os brasileiros, diferentes dos estrangeiros.
O conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um determinado grupo social que existe objetivamente, com sua história, suas tradições, suas normas e interesses.
A identidade é constituída pelos diversos grupos de que fazemos parte. Esta constatação pode nos levar a um erro, qual seja o de pensar que os substantivos com os quais nos descrevemos (“sou brasileiro”, “sou homem”, etc.) expressam ou indicam uma substância (“brasilidade”, “masculinidade”, etc.) que nos tornaria um sujeito imutável, idêntico a si mesmo, manifestação daquela substância.
Um grupo existe objetivamente: através das relações que estabelecem seus membros entre si e com o meio onde vivem, isto é, pela sua prática, pelo seu agir; trabalhar, fazer, pensar, sentir , etc., já não mais substantivo, mas verbo. É pelo agir, pelo fazer, que alguém se torna algo: ao pecar, pecador; ao desobedecer, desobediente; ao trabalhar, trabalhador. Nós somos nossas ações, nós nos fazemos pela prática.
A resposta a pergunta “quem sou eu?” é uma representação da identidade; então, torna-se necessário partir da representação da identidade, como um produto, para analisar o próprio processo de produção.
Texto de referência: CIAMPA, A. C. Identidade, In: Lane, S.T.M. et Codo, W. (orgs.) Psicologia Social: o homem em movimento, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989.

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