quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sociedade da informação


Pontos fortes de reflexão do texto: Ambivalências da sociedade da informação

Ao falarmos de sociedade da informação ou do conhecimento é fundamental não perder de vista seu contexto econômico, para não supervalorizarmos o aspecto tecnológico, como se a face do progresso fosse a única. Trata-se do capitalismo extremamente concentrador de renda e poder.
O mundo tornou-se uma “pequena aldeia”, não tanto porque nos vemos comunicamos mais facilmente, mas porque as linhas de força se fizeram tanto mais convergentes. De uma parte, a interdependência dos povos e pessoas pode repercutir em graus maiores de liberdade, à medida que todos estamos no mesmo barco, mas, de outra, pode produzir amarras ainda mais rígidas, quando sua dinâmica foge ao controle da maioria, concentrando-se, como privilégio extremo, em poucas mãos.
Em nada mudou o fenômeno da mais-valia, ainda que sua dinâmica esteja marcada por outro momento histórico, no qual a produção e o uso intensivo de conhecimento se tornaram a mola mestra.

Informar para desinformar

É já comum a queixa de que estamos entupidos de informação, cercados de um bombardeio do qual já não temos qualquer controle. Pensamos que se trata de informação, mas na verdade trata-se de manipulação difícil de compreender. “Desinformar faz parte da informação, assim como a sombra faz parte da luz”. Se comparássemos a capacidade que temos de fazer guerra com a que temos de fazer paz, teríamos alguma noção de como a primeira está avançada e a segunda absurdamente atrasada. É sempre possível, pois, usar o melhor conhecimento para construir o mais refinado processo de imbecilização. Desinformar será, portanto, parte fundamental do processo de informação.
Como asseveram Maturana e Varela, a percepção está condicionada ao “ponto de vista do observador”, o que nos faz, ademais, prisioneiros de nossas próprias descrições.
Algo similar pode-se dizer do marketing, que representa estratégias inteligentes de convencimento sub-reptício, armadas com refinados processos de informação dirigida. Pode haver o lado da transparência, como quer Brin, mas dificilmente não predomina o lado da prepotência manipulativa. O problema da informação manipulativa, contudo, não deveria nos perturbar em demasia, porque lhe faz parte. Quando nos surpreendemos com efeitos manipuladores dos noticiários da televisão, por exemplo, damos um atestado de incrível ingenuidade, porque é impraticável informar com imparcialidade completa.
Em certo sentido, todo processo informativo é manipulador, porque seleciona a informação disponível, além de a interpretar hermeneuticamente. Esta é marca do conhecimento como tal: à medida que conhece a realidade, destaca nela o que o método pode captar, além de impingir interpretações orientadas pelo interesse, por vezes escuso. Como não é possível fugir da manipulação, o que de melhor conseguimos até hoje é montar estratégias abertas de controle, sabendo que controle total é impraticável, sobretudo indesejável. A contra-interpretação é o corretivo da interpretação, sempre sob risco, assim como a coerência da crítica está na autocrítica.
Destarte, a manipulação menos prejudicial é aquela que se oferece à discussão aberta. Falando, por exemplo, de noticiários da televisão, alguns diriam que o “Jornal Nacional” da Globo tende a ser “oficial”, no sentido de veicular o que favorece a ordem vigente. A seletividade manipulativa da informação aparece na ênfase sobre notícias favoráveis ao status quo, bem como na maneira de arrumar as notícias e na retórica e estética que as cercam, em particular nos locutores e efeitos especiais. É imbecilizante no sentido de que nos tolhe a visão crítica, fazendo-nos crer que a maneira mais atraente de dar notícia é a própria. Desfaz seu caráter disruptivo, induzindo-nos à acomodação. Outros noticiários também são manipulativos, por certo, mas podem, em seu ontraponto, conclamar algo de espírito crítico e, quando menos, não ser tão manipulativos. No pano de fundo de todos, tremula a bandeira certa do mercado: notícia de verdade é aquela que vende.
  • Primeiro, a sociedade continua bastante “desinformada”, seja porque lhe chega tendencialmente informação residual, ou porque se lhe impõe informação oficial, ou porque se entope atabalhoadamente.
  • Segundo, há informação de classe superior e inferior, cuja variação está em função como regra do poder aquisitivo de cada um. Alguém que pode assinar vários jornais e revistas tem, relativamente, melhores condições de comparar as diferentes fontes e cultivar um pouco mais de espírito crítico.
  • Terceiro, abunda na praça informação imbecilizante, seja por conta da distorção por vezes clamorosa, mas igualmente pela exploração das futilidades da mídia, como são publicações que nada mais fazem do que esticar a mediocridade das novelas mostradas na televisão diariamente. A população, além de “ler” pouco, tende a ler banalidades, que, a título de passatempo, embotam o espírito crítico.
  • Quarto, a mídia está muito distante de sua função pública, porque corresponde a um estilo afrontoso de apropriação privada, dirigida por trâmites comerciais estritos. Não existe qualquer controle público digno de nota que preserve os interesses do público. Sem recair na “censura”, sempre impertinente e no fundo equivocada, é preciso que a sociedade possa pressionar adequadamente a mídia, para que os interesses comerciais não sejam os únicos.
  • Quinto, a potencialidade informativa dos novos meios de comunicação está ainda presa a acessos elitistas, e quando traduzida em teleducação, tende fortemente ao instrucionismo. Como bem mostra igualmente a biologia, o instrucionismo é intrinsecamente imbecilizante.
Conclusão

A inteligência está na habilidade de lidar com a ambivalência. Aprender é sobretudo saber pensar, para além da lógica retilínea e evidente, porque nem o conhecimento é reto, nem a vida é caminho linear. A informação não pode ser receita pronta, mas o desafio de a criar, mudar, refazer. O risco de manipulação é intrínseco, mas é no risco que podemos reduzir a manipulação. A sociedade da informação informa bem menos do que se imagina, assim como a globalização engloba as pessoas e povos bem menos do que se pretende. Na sociedade da mercadoria, mercadoria vem antes.
A informação é em si ambivalente, tanto em quem a pronuncia, quanto em quem a recebe. Em todos os momentos passa pelo filtro da subjetividade, além de sua dimensão estar limitada pelo aparato perceptor e conceitualizador. Mas é esta ambivalência que resgata sempre a possibilidade de criar, inventar. Se tudo fosse apenas lógico, seria apenas repetitivo. O mundo da informação é agitado, conturbado, porque é, ao mesmo tempo, intrinsecamente manipulado e impossível de ser totalmente manipulado.


Texto de referência: DEMO, Pedro. Ambivalências da sociedade da informação. Ci. Inf. [online]. maio/ago. 2000, vol.29, no.2


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Identidade em questão

Uma questão Complicada

O que é identidade?
Já vimos que nos satisfazer com a concepção de que se trata da resposta dada à pergunta “quem sou eu?” é pouco, é insatisfatório. Ela capta o aspecto representacional da noção de identidade, mas deixa de lado seus aspectos constitutivo, de produção, bem como as implicações recíprocas destes dois aspectos.
Dizer que a identidade de uma pessoa é um fenômeno social e não natural é aceitável pela grande maioria dos cientistas sociais. Antes de nascer, o nascituro já é representado como filho de alguém e essa representação prévia o constitui efetivamente, objetivamente, como “filho”. Posteriormente, essa representação é assimilada de tal forma que seu processo interno de representação é incorporado na sua objetividade social como filho daquela família.
Na medida em que é pressuposta a identificação da criança como filho que os comportamentos vão ocorrer, caracterizando a relação paterno-filial. A identidade do filho, se de um lado é conseqüência das relações que se dão, de outro é uma condição dessas relações.
Cada posição do indivíduo o determina, fazendo com que sua existência concreta seja a unidade da multiplicidade, que se realiza pelo desenvolvimento dessas determinações. Em cada momento de sua existência manifesta-se uma parte do indivíduo como desdobramento das múltiplas determinações a que ele está sujeito.
Este jogo de reflexões múltiplas que estrutura as relações sociais é mantida pela atividade dos indivíduos, de tal forma que é licito dizer-se que as identidades, no seu conjunto, refletem a estrutura social ao mesmo tempo em que reagem sobre ela conservando-a ou a transformando.

Nem anjo, nem besta: apenas homem

A noção tradicional que se tem de identidade, ou seja, “o que é, é”; “um ser é idêntico a ele mesmo”: isso decorreria da necessidade para ser de ser o que é.
“O ser, ser o que é “ implica o seu desenvolvimento concreto; a superação dialética da contradição que opõe Um e Outro fazendo devir um outro, outro que é Um que contem ambos .
“O que é para o ser humano ser o que é? O movimento do social, o qual constitui a História: ela é a progressiva e continua hominização do Homem, a partir do momento em que este, diferenciando-se do animal, produz suas condições de existência, produzindo-se a si mesmo consequentemente.
O existir humanamente não está garantido de antemão, nem é uma mudança que se dá naturalmente – exatamente porque o homem é histórico.
Uma alternativa impossível é o homem deixar de ser social e histórico; ele não seria homem absolutamente. Outra possibilidade é deixar de ser também um animal, consequentemente, submetido às condições dessa sua natureza orgânica. Contudo não pode ser só animal (dada sua natureza social e histórica).
Nem anjo, nem besta, o homem é homem, como uma afirmação da materialidade continua e progressiva hominização do homem.
O fato de vivermos sob o capitalismo e a complexidade crescente da sociedade moderna impedem-nos de ser verdadeiramente sujeitos. A tendência geral do capitalismo é constituir o homem como mero suporte do capital, que o determina, negando-o enquanto homem, já que se torna algo coisificado.
O verdadeiro problema de identidade do homem moderno: a cisão, entre o individuo e a sociedade, que faz com que cada individuo não reconheça o outro como ser humano e, consequentemente, não se reconheça a si próprio como humano.

Texto de referência: CIAMPA, A. C. Identidade, In: Lane, S.T.M. et Codo, W. (orgs.) Psicologia Social: o homem em movimento, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989.

Quem é você?

"Mulher ao espelho" - Pablo Picasso
Identidade

Uma pergunta aparentemente simples: Quem é você ?
Não é tão fácil como pode parecer a primeira vista, podemos admitir que este é um problema digno de uma pesquisa científica. Não só pela dificuldade, mas também pela importância que esta questão apresenta: outros especialistas têm se envolvido com ela além de cientistas e filósofos: nos tribunais, juízes, promotores, advogados, peritos, etc. Em praticamente todas as situações da vida cotidiana, a questão da identidade aparece, de uma forma ou de outra. A identidade de um reflete no outro e a do outro reflete naquele um (exemplo, pai e filho, ele só é meu pai porque eu sou filho dele).
“Quem sou eu?” A primeira observação a ser feita é que nossa identidade se mostra como a descrição de uma personagem. Personagem que surge num discurso (nossa resposta, nossa história).
Se você é personagem de uma história, quem é o autor dessa história? Todos nós – eu, você, as pessoas com quem convivemos – somos as personagens de uma história que nós mesmos criamos, fazendo-nos autores e personagens ao mesmo tempo.
Não só a identidade de uma personagem constitui a de outra e vice-versa, como também a identidade das personagens constitui a do autor.
Até agora falamos das pessoas como se elas fossem de uma determinada forma e não se modificassem, o que é falso. Há mudanças mais ou menos previsíveis, o estudante que se torna profissional depois de formado representa uma mudança bem mais prevista do que a do jovem que se torna criminoso.
Nós nos tornamos algo que não éramos ou nos tornamos algo que já éramos e estava como que “embutido” dentro de nós? Parece que quando se trata de algo positivamente valorizado, a tendência nossa é afirmar que estava “embutido” em nós (“sempre tive vocação para ser médico”); quando não desejável, frequentemente estava “embutido” nos outros (“sempre achei que ele tinha propensão para o crime”).
Uma identidade como uma totalidade. Uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una. Por mais contraditório, por mais mutável que seja, sei que sou eu que assim, ou seja, sou uma unidade de contrários, sou uno na multiplicidade e na mudança.

No principio era o verbo

Quando queremos conhecer a identidade de alguém, nossa dificuldade consiste apenas em obter as informações necessárias. Obter informações necessárias é uma questão prática: quais as informações significativas, quais as fontes confiáveis, de que forma obter as informações, como interpretar essas informações, etc.
Como são fornecidas essas informações?
A forma mais simples, habitual e inicial é fornecer um nome, um substantivo; substantivo é a palavra que designa o ser, que nomeia o ser. Nós nos identificamos com nosso nome, que nos identifica num conjunto de outros seres, que indica nossa singularidade: nosso nome próprio. É sinal de amizade e respeito não esquecer nem confundir o nome das pessoas que prezamos.
O primeiro grupo social do qual fazemos parte é a família, exatamente quem nos dá nosso nome. Nosso primeiro nome nos diferencia de nossos familiares, enquanto o ultimo nos iguala a eles.
Diferença e Igualdade. É a primeira noção de identidade.
Sucessivamente, vamos nos diferenciando e nos igualando conforme os vários grupos sociais de que fazemos parte: brasileiro, igual a todos os brasileiros, diferentes dos estrangeiros.
O conhecimento de si é dado pelo reconhecimento recíproco dos indivíduos identificados através de um determinado grupo social que existe objetivamente, com sua história, suas tradições, suas normas e interesses.
A identidade é constituída pelos diversos grupos de que fazemos parte. Esta constatação pode nos levar a um erro, qual seja o de pensar que os substantivos com os quais nos descrevemos (“sou brasileiro”, “sou homem”, etc.) expressam ou indicam uma substância (“brasilidade”, “masculinidade”, etc.) que nos tornaria um sujeito imutável, idêntico a si mesmo, manifestação daquela substância.
Um grupo existe objetivamente: através das relações que estabelecem seus membros entre si e com o meio onde vivem, isto é, pela sua prática, pelo seu agir; trabalhar, fazer, pensar, sentir , etc., já não mais substantivo, mas verbo. É pelo agir, pelo fazer, que alguém se torna algo: ao pecar, pecador; ao desobedecer, desobediente; ao trabalhar, trabalhador. Nós somos nossas ações, nós nos fazemos pela prática.
A resposta a pergunta “quem sou eu?” é uma representação da identidade; então, torna-se necessário partir da representação da identidade, como um produto, para analisar o próprio processo de produção.

Texto de referência: CIAMPA, A. C. Identidade, In: Lane, S.T.M. et Codo, W. (orgs.) Psicologia Social: o homem em movimento, São Paulo, Ed. Brasiliense, 1989.

Comportamentos de risco

© Foto de Rogério Reis. Surfe ferroviário. 1990.
Um esporte radical e suicida em meio a postes e cabos de alta tensão com descarga elétrica de até 4400v. O choque elétrico muitas vezes dissolvia em frações de segundos o corpo do praticante”, declarou Rogério Reis em entrevista ao blog Pictura Pixel em dezembro passado.

Depoimento de um viciado
Composição: Realidade Cruel




São 2 da manhã ,e eu de calça e blusa
O tempo frio, do céu cai chuva
Eu sou sozinho parceiro e é foda
Com meu destino ninguém mais se importa
Chegar, ao ponto que eu cheguei é lamentável
Estado físico inacreditável eu sinto crise
Eu sinto convulsão, é muito triste o meu estado sangue bom
30 quilos mais magro vai vendo
O resultado é pura essência do veneno
O vício tira a calma, a cabreragem me acelera
O demônio rouba a alma, o inferno me seqüestra
Cadê a luz que vem lá do céu
Cadê jesus pra julgar mais este réu
Tenho vontade de morrer constantemente
O descontrole da mente me deixa impaciente e é foda
Eu saio que nem louco pela rua
Único mano é o cano na cintura
Eu preferia ta falando de amor
Falando das crianças e não da minha dor
Mas eu sou o espelho da agonia de um homem
Sem identidade, caráter, sem nome
Sem Mercedes, Audi ou Mitsubish
Consumidor da praga do apocalipse
Tão jovem sem esperança de vida
Tão novo e já suicida
São 2 da manhã e faz chuva
O pesadelo ainda continua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento de um viciado)
Eu comecei de forma curiosa
Um cigarro de maconha não era droga
Era o que todo mundo me falava
Experimentei nem eu mesmo acreditava
Primeira vez, outra sensação
Segunda vez mó barato ilusão
Mundo dos sonhos, me sinto mais leve
Enquanto isso meus neurônios fervem
Sentia fome, sentia a viagem inteira
Observava de longe as paisagens
A fumaça me deixava cada vez mais louco
Sem perceber eu já era o próprio demônio
Segundo passo, veio a cocaína
Morava com a minha mãe, me lembro da minha mina feliz
Cheirava comigo sem parar
2 loucos 24 horas no ar
Parei com estudo, perdi até o trampo
Ganhei o mundo e uma desilusão e tanto
Perdi a minha própria mãe, que trauma!
Morreu de desgosto por minha causa
Nem assim eu consegui parar vich!
Só a morte pode me libertar
Eu roubava pra sobreviver ou melhor
Pra manter o vício e não morrer, que dó
Suicídio lento era o processo
Eu nunca fui estrela, eu nunca fui sucesso
Contaminado HIV positivo
Qual a diferença do inimigo pro perigo
Aí, são 2 da manhã e faz chuva
Pesadelo ainda continua
Continua ladrão, o pesadelo ainda continua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento de um viciado)
Amigo, aí , eu falei esta palavra
Me desculpa foi erro, não pega nada
Eu nunca tive amigo nessa porra
Só prejuízo na vida de ponta a ponta
Mas quem vai se importar, eu sou apenas mais um
Aidético viciado, infelizmente comum
Mais um entre mil ou um milhão ladrão
Escravo desta triste detenção
Eu não sou Rafael e nem a Vera Fischer
A minha história parceiro é mais triste
Eu nunca engoli escova de cabelo
Mas já matei pelo crack e por dinheiro
Puta que pariu, o inferno me chama
Quem sabe lá eu consigo a fama ou o drama
Ou a lama de fogo eterno
Condenado a escuridão do inferno
Hoje, eu sou louco de intensa coragem
Com o ferro a favor do crack
Não sei se a malandragem é minisérie ou história
Mais sei, que a carreira parceiro é sem glória
Vou tentar não matar mais ninguém
Chega de ser refém, eu preciso é do bem
Vou entregar a Deus a minha vida
Vou acreditar nas palavras da bíblia
Arrependido de todos os pecados
Ter conseguido escapar do diabo
Espero que a minha história sirva de exemplo
Pra quem tá começando, parceiro como eu comecei
Que se afaste das drogas enquanto é tempo
Pra não provar do veneno que eu provei
É embaçado sangue bom, vai por mim
Tudo nesta vida tem um fim
São 2 da manhã faz chuva
Eu vou orar pela minha alma e pela sua
É madrugada faz chuva
Eu vou orar pela minha alma e pela sua...
Um dia frio
Um bom lugar pra ler um livro
E o pensamento lá em você
Eu sem você não vivo (depoimento de um viciado).

Noção de risco


Noção do risco na contemporaneidade e transição para a vida adulta.
  • Praticas de risco entre os jovens: consumo imoderado de álcool e drogas ilícitas.
  • Contemporaneidade: tempo de avanços tecnológicos e diversos paradoxos.
  • Enorme facilidade na troca de informações.
  • Alargamento da noção de direitos humanos.
  • Primeiro paradoxo: âmbito social. O avanço nos sistemas de produção automatizados e o incremento de novas tecnologias em diversas áreas de produção não significaram a redução da pobreza, nem a melhoria das condições de vida da população mais pobre. Apesar disso observa-se um acirramento das desigualdades sociais.
  • Segundo paradoxo: âmbito dos direitos humanos. Reconhecimento e legitimação dos direitos humanos versus vivência de situações de violência e desrespeito a esses mesmos valores.
  • Apesar de indicadores econômicos e sociais apresentarem valores ascendentes há um forte sentimento de insegurança existe hoje uma falta de credibilidade nos poderes públicos.
  • A população jovem é a mais atingida pelas deturpações desse tempo histórico, sobre elas pesam cobranças e expectativas de inserção no mercado de trabalho, de formação escolar, etc.
O lugar do risco na contemporaneidade
  • Anteriormente quando a sociedade via- se em uma situação de risco, percebia-se isso como uma forma de azar/sorte, chance, fatalidade ou mesmo envolvendo uma vontade divina ou do destino. Na sociedade contemporânea introduziu-se uma noção de organização e planejamento frente ao futuro com perspectivas de torná-lo “controlável”.
  • Duas direções para o sentido do risco: Numa congrega valores de audácia, coragem, de certa ironia diante do perigo, de desafio frente a obstáculos e na direção de ampliar conquistas. Em outra remete a apelos de contenção, de adesão às normas vigentes, é uma busca do próprio indivíduo nessas práticas que causam tanto risco.
  • Hoje para os jovens existem presentes imperativos moralizadores (não fume, não beba, estude). Existe um vazio preenchido por uma falta de sentido na vida.
  • Assumir atitudes de risco compete a uma busca de significado para a vida no enfrentamento da morte, dando chances iguais de dela escapar. Muitas vezes tais situações de risco encaminham o sujeito a destruição como no consumo imoderado de drogas, formas irresponsáveis de condução de veículos, ao sexo desprotegido ou também expressões culturais como o surfe ferroviário ou participação em torcidas organizadas de futebol.
A juventude na contemporaneidade
  • Juventude compete-se aqueles entre 15 e 24 anos de idade (ou pelo menos tradicionalmente).
  • Assume-se a vida adulta a partir do momento em que o individuo assume papeis sociais prescritos na sociedade, como inserção no mercado de trabalho, independência financeira, formação de uma família e conclusão dos estudos. Hoje já não há um tempo certo para tornar-se adulto, afinal cada vez mais a juventude já não se conclui com o final da graduação, há ainda agora os cursos de pós-graduação e outros que adiam a formação de uma nova família bem como a independência financeira. Por outro lado há aqueles que começam uma vida sexual cedo (coisa também de nossos tempos) e precisam interromper seus projetos de formação e qualificação profissional para assumirem responsabilidades de uma nova família, ou mesmo há aqueles que entram precocemente no mercado de trabalho atrapalhando também sua formação.
  • Por tanto a juventude pode estender-se ate a terceira idade ou encerrar-se antes de completados os vinte anos.  

Texto de Referência: “O sentido do risco” – S. La Mendola.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sobre a crítica da modernidade

Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais, quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo isto é o mesmo que ele;(...) tudo isto é uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem, como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens, outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.

"O livro do desassossego", fragmento 70, Fernando Pessoa.

Este fragmento expõe o sentimento de inconsciência dos indivíduos absortos no cotidiano moderno, cegos diante da servidão social. A passagem exemplifica o conceito de Freud sobre a inconsciência, e consequente servidão involuntária e até mesmo oculta nas próprias pessoas.

Foto do filme "A fita branca" (Das weisse band, 2009) de Michael Haneke.
O filme trata dos nazi-facismos, políticas em que há uma submissão disfarçada de discurso civilizatório, característica do masoquismo e da servidão voluntária (vítimas) e involuntária (membros).

Paródia da servidão une um "enfeitiçador", que lembra domar e escravizar as vontades das pessoas e se assemelha à servidão involuntária, com a televisão, veículo de informação em massa que é um dos símbolos da modernidade e remete à servidão voluntária (já que ninguém é obrigado a assistí-la).

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Servidão Voluntária



A Servidão Voluntária

Desde a criação da expressão Servidão voluntária por La Boétie, a sociedade vem se deparando com o fato de sua natureza antropológica. Esse marco dá-se a partir da aceitação da teoria heliocêntrica, em que o ser humano se livra do dogma divino e do universo finito, e passa a se representar pela servidão voluntária, ou seja, aquela em que se evidencia a vontade humana.

Analisando isso mais a fundo, nota-se um paradoxo sem oposição entre tese e antítese, advindo da transformação radical da servidão ao longo dos tempos, que, de involuntária, passou a ser voluntária. No mundo antigo, reinava a onipotência divina, já no mundo moderno o homem se tornou livre pra usar a razão e o discurso da ciência. Logo o poder, antes divino, torna-se humano, evidenciando a servidão inerente, apesar dos pensamentos e vontades individuais. As pessoas, reconhecendo sua liberdade de decisão, foram em busca de utopias libertárias, as mesmas que encabeçaram a Revolução Francesa e derrubaram o Antigo Regime.

Porém, percebeu-se que este exercício de liberdade não levaria ao fim da servidão; logo a relação de liberdade e servidão se mostra muito mais complicada do que parece ser. Os Totalitarismos, como o nazismo e fascismo, são um bom exemplo de servidão voluntária, baseada nos princípios de democracia e na positividade que afirma, apesar da negatividade que de tais regimes.

A Psicanálise

A liberdade, que sempre foi combustível para a psicanálise, tem papel importante na transformação da servidão. A partir disso, Freud fez uma crítica à modernidade, defendendo a liberdade do inconsciente, para livrar as pessoas do determinismo da consciência, que influiria na sexualidade, e no que seria moralmente certo com relação a ela, como o mal-estar nas relações sociais e o empobrecimento simbólico. Portanto, se existe um servo, deve haver um senhor; logo existe uma relação, trata-se do masoquismo.
O Masoquismo

O masoquismo foi um paradigma muito destacado no discurso de Freud, pois passou a representar várias modalidades psicopatológicas, de forma que esta seria a origem dos problemas. Porém ele não vem sozinho, mas advém de uma necessidade de segurança do individuo; a isto dá se o nome de desamparo.
Para se proteger do desamparo, o indivíduo “se vale do masoquismo como forma primordial de subjetivação”, ou seja, se submete a outro alguém de todas as formas, desde que este não lhe deixe desamparado. O eco disso está no outro, que também foge do desamparo, mas triunfando sobre o servo.

O conceito de desamparo tem a ver com a queda da sociedade tradicional e a consequente perda de padrões de identidade, que levaram o indivíduo a se constituir de suas próprias escolhas e meios. Segundo Freud, sem atravessar essa fase de desamparo e suportando a dor, o indivíduo não encontra sua verdadeira identidade e a liberdade, tornando-se parte da servidão.

Texto de referência: "Arquivos do mal-estar e da resistência" de Joel Birman, Capítulo I, "A servidão".